Transfiguração


Esse texto foi escrito em 1984. Eu estava na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, no segundo ano do Curso de Formação de Oficiais, e, em uma semana destinada à higiene, todos nós fomos obrigados a participar de um concurso de redação sobre o tema. A minha foi vencedora, e tive de ler o texto diante da tropa em forma. Imaginem o mico: você diante de uma tropa de cadetes, todos na mais perfeita ordem e disciplina, lendo uma historinha para crianças! Confesso que minhas pernas tremiam, e por algumas semanas fui motivo de brincadeiras entre os colegas. O texto apresentado é recriação daquela redação, tentei recriá-la o melhor possível, pois o original se perdeu com o tempo. Acrescentei ainda uma parte final, para completar a história.


 

 

Transfiguração


Num vilarejo pequeno próximo a uma grande floresta, vivia uma família humilde, o casal e quatro filhos. As crianças mais velhas eram bastante bem comportadas, porém a mais nova, um menino de uns três anos era terrível. Resmungão, não parava de incomodar seus irmãos, tinha grande predileção pela sujeira e péssimos hábitos . Quando comia sempre dava um jeito de enfiar a mão no prato e misturar tudo. A cada dia que passava tornava-se pior, para desespero de seus pais, que não sabiam mais o que fazer. O vilarejo todo comentava o jeito difícil do menino, tão diferente dos irmãos.

Um dia, antes de completar cinco anos de idade, o pequeno levado resolveu fugir de casa. Seus pais e irmãos o procuraram por toda parte, mas não conseguiram nenhuma informação sobre o paradeiro do menino, e depois de muito tempo de buscas, acabaram acreditando que algum animal da floresta o havia levado.

O menino, na verdade, escondera-se na floresta e permanecia nas tocas e nas moitas mais fechadas, evitando deliberadamente as pessoas. Alimentava-se de frutos, raízes e insetos, como se fosse um animal. Estava feliz, porque podia sujar-se à vontade sem ninguém reclamando e o obrigando a tomar banho. Passados uns dois anos cansou-se dessa vida de bicho e resolveu retornar para sua gente.

Chegou em casa à tardezinha, quando todos já se haviam recolhido, e achou estranho a porta parecer tão alta. Não conseguindo abri-la resolveu bater na porta, o que fez com grande estardalhaço, assustando a família, que estava reunida para o jantar. O pai foi ver o que acontecia.

Quando a porta se abriu o menino tentou falar, mas só saíram grunhidos de sua boca. O pai por sua vez não viu pessoa alguma, encontrando apenas um porquinho que olhava para ele de maneira curiosa. A família toda foi ver o que acontecera, e resolveram colocar o porquinho num chiqueiro no fundo do quintal. A verdade é que o menino se transfigurara naquilo que seu comportamento parecia: um porquinho. A família sem ter idéia disso resolveu engordá-lo, pois faltavam alguns meses para o fim de ano, e até lá ele estaria gordo o suficiente para um belo assado…

Às crianças que ouvem esta história: cuidado com a transfiguração.

Ela pode ocorrer com qualquer um que tenha um comportamento difícil, e não é só naquele vilarejo que isso acontece. Se você for agressivo, a transfiguração será canina, se for teimoso, será asnina, se for estúpido, será eqüina, se for de muita timidez, será avestruzina, se for de falta de higiene bucal, será jiboial, se for de desordem, será macacal, de preguiça será preguiçal, de sujeira, será suína. Existem transfigurações para muitas coisas.

Ah, vamos continuar a história, chega de advertências.

O fim de ano estava chegando, o porquinho já bem gordo. Ele, no entanto, ainda conservava sua consciência humana apesar da transfiguração, e sabia que dali a poucos dias iria acabar servindo de comida no almoço de fim de ano, e se desesperava por sua triste condição.

Já estava em tempo de preparar o porco. Toda família iria ajudar, pois isso é uma coisa que dá muito trabalho. O pai foi à floresta buscar lenha, enquanto as crianças lhe davam a última alimentação.

Na floresta o pai juntava galhos em feixes, para levar para casa. De repente apareceu Curupira, dando-lhe um grande susto, mas não ficou com muito medo, pois sabia que Curupira só judiava daqueles que faziam mal à floresta e seus habitantes, e isto ele nunca fizera. Curupira, então, entregou-lhe um porco, já amarrado para o transporte, dizendo-lhe que achava que o castigo já era suficiente, e que ele deveria libertar o outro porco, usando o que lhe entregara para o assado de fim de ano. O pai, mesmo sem entender nada, partiu dali levando o porco amarrado, sem querer fazer perguntas para Curupira.

Chegando em casa tratou logo de ir ao chiqueiro, acompanhado da família, que estava admirada por ele ter trazido outro porco. Para surpresa de todos, assim que foi libertado, o porco que estava no chiqueiro começou a destransfigurar-se, voltando a ser novamente menino, para alegria de todos, só um pouco maior e mais gordinho. Desde esse dia tornou-se uma criança de excelente comportamento. É bem verdade que ainda adora brincar nas poças de lama, mas sempre tendo o cuidado de não sujar demasiadamente as roupas, e de tomar banho depois.


Capitão Anilto

Outubro de 2009

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Categoria: Infantil, Literatura
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2 comentários
  1. Antonio Jota disse:

    Casquinei a dar com o pau… Muito boa essa historinha, viu Capitão. Adorei, rapaz. O Sr. já tinha um fã, agora tem um mais do que fã. É lindinha mesmo.

    Abs, meu amigo.

  2. martha disse:

    Capitão… muito legal mesmo sua história. È dificil imaginart um capitão q tem todo um regimento a seguir conseguir viajar na imaginação, juntou folclore com lição de moral … adorei muito boa mesmo. Vou contar para meus aluns e trabalhar higiene e bons modos com eles… Escrever é uma arte.. Parabéns

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