A rua era escura, casas fechadas por muros altos, as árvores nas calçadas mantinham a eterna penumbra. Ernesto, o carteiro, detestava fazer as entregas naquele lugar. Até já pedira para trocar de setor. Felizmente fora atendido. Mas ainda precisava entregar as correspondências pela última vez naquele lugar, no dia seguinte, um domingo, estaria de folga, e depois iria para outro setor. mais…
Patrícia, uma criança difícil, tornou-se uma adolescente rebelde, detestava os irmãos mais novos, detestava crianças. Aos 17 anos deixou sua casa, engravidou de um colega das noitadas. Nasceu-lhe um filho deficiente, e sem ter a quem recorrer, se viu obrigada a cuidar dele sozinha. Tornou-se uma mãe resignada, até que aos seis anos o menino conseguiu balbuciar pela primeira vez a palavra “mamãe”. Ela tornou-se uma mãe dedicada. Aos dezesseis, quando ele articulou “mãe, eu te amo”, Patrícia tornou-se uma mãe realizada.
Eu era uma pessoa amargurada e triste, inconformada com a vida. Detestava gente, trabalhava para sobreviver somente. Minha angústia afastava a todos e me isolava do mundo. Deprimido, considerava morrer. Finalmente um acidente de carro me levou no limiar da vida a um hospital. Pessoas desconhecidas me trataram, me alimentaram. Família e amigos que eu sempre desprezara permaneceram ao meu redor. Sobrevivi. A dor do acidente retirou a dor do viver.
Hoje, numa cadeira de rodas, abrindo a janela eu vejo: uma criança que brinca, um velho rindo à toa, um pássaro que voa, árvores e flores na praça, um carro que passa, homens andando apressados, casais enamorados. Multicolorida, da minha janela eu vejo a vida!
Como pomba perdida em meio à multidão, uma pequena criança anda sem rumo, procurando moedas jogadas em gesto automático por aqueles que passam apressados, sem tempo para piedade ou cuidados, tentando com isto calar o apelo do próprio coração. E a pequena criança, catando as moedas-migalhas, sorri feliz por saber que vai ter um pão para comer.
Não tem lar, nem parentes, nem afeição, seu brinquedo é uma boneca de pano encontrada no lixo da cidade, seu abrigo uma caixa de papelão. E todo dia caminha sem rumo, e a cada moeda-migalha que acha no chão, sorri feliz por saber que vai ter um pão para comer.



Recentemente estive envolvido na publicação de um livro de Antonio Jota. Minha tarefa foi fazer uma revisão do livro, sob a ótica de um leitor, escrever a sinopse e preparar a capa.
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