A rua era escura, casas fechadas por muros altos, as árvores nas calçadas mantinham a eterna penumbra. Ernesto, o carteiro, detestava fazer as entregas naquele lugar. Até já pedira para trocar de setor. Felizmente fora atendido. Mas ainda precisava entregar as correspondências pela última vez naquele lugar, no dia seguinte, um domingo, estaria de folga, e depois iria para outro setor.
Por azar, estava atrasado. Ao chegar na rua sombria, já estava escurecendo. Ernesto parou, olhou a rua e sentiu um arrepio. Deu meia-volta e entrou no primeiro bar que encontrou. Não bebia, mas desta vez abriu uma exceção. Pediu um conhaque e tomou de um só gole. Sentiu sua garganta queimando, mas no seu íntimo acreditou que isso lhe dera coragem. Enfrentou a rua.
Ao pegar o pacote de cartas, decepção: seu olhar embaçado pela bebida não conseguia distinguir os números. Contrariado, mas decidido a encerrar sua tarefa, foi enfiando aleatoriamente as cartas nas caixas de correio, até a última. Foi embora aliviado. Nunca mais retornaria àquela rua sombria.
No dia seguinte os moradores, ao examinarem a correspondência, perceberam a trapalhada do carteiro. Timidamente, um a um ia de uma casa a outra, tentando entregar as cartas, e explicar que não tinham nada a ver com o ocorrido. Um velho aposentado descobriu uma senhora que tinha crianças simpáticas, uma bailarina descobriu uma escritora, um rapaz solitário descobriu duas jovens loiras sorridentes, um empresário descobriu uma advogada, e assim começaram a conhecer-se.
Um mês depois as ávores haviam sido podadas, muitos muros foram substituídos por grades vazadas, casas foram pintadas de cores alegres, o empresário havia feito um churrasco para a vizinhança, crianças agora brincavam na rua. A rua sombria tornou-se alegre.
Ernesto, agora em outro setor, não sabia disso. Acabou encontrando outra rua sombria… Quem sabe não era esta sua sina?
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