Ibirá


Enquanto se preparava para dormir, Ibirá ouvia o canto lamentoso do urutau, o que combinava bem com sua aflição. Depois de algum tempo, encolheu-se na rede sem esperanças de conciliar no sono. Estava agoniada demais para dormir, e remoía as últimas descobertas sobre sua vida. Pensava em Cauã, o qual jamais veria novamente. Não recriminava sua atitude, sabia que não havia opções. Cauã embrenhara-se na floresta com a intenção de nunca voltar.

Ela mesma não sabia o que seria de sua vida, tudo estava nas mãos do morubixaba, cujos conselhos aguardaria até o amanhecer. Devido à gravidade da situação, o próprio morubixaba pedira um tempo para pensar, para tentar encontrar o melhor caminho. Certamente a morte seria a melhor solução, mas não tinha coragem suficiente para isso, e também pensava em sua cria, que se bulia em suas entranhas, de antemão condenada.

A mãe de Ibirá viera de uma taba distante, a Taba do Grotão, logo depois de perder seu companheiro, vítima de uma onça. Trouxe consigo um filho homem, deixando lá Ibirá pequena, sob os cuidados de seus parentes. Na época havia carência de mulheres para os afazeres da Taba da Beira, e havia necessidade da colaboração dos outras tabas da tribo para a sobrevivência de todos. Não era possível simplesmente abandoná-la, pois outras tribos se apossariam da região, causando mais dificuldades. A mãe de Ibirá, no entanto, não durara muito, morrendo com a febre tremedeira poucos dias depois. Seu filho permaneceu por ali, criado junto aos outros curumins, desligando-se assim desligara-se de seus parentes que viviam na outra taba,  e isso foi sua perdição.

Quando se tornou cunhã, Ibirá pensou em seguir os passos de sua mãe, indo para a Taba da Beira. Por esse tempo apareceu por ali  um curumin-guaçu caçador, chamado Cauã, que perambulava pela floresta das imediações. Ibirá apaixonou-se por ele, e passou a acompanhá-lo. Acabaram unindo-se, e em conseqüência, Ibirá emprenhou. Decidiram então seguir até a taba onde Cauã morava, para acertar a situação junto ao morubixaba e ao pagé da tribo, mas protelaram essa decisão por alguns meses. Quando enfim seguiram viagem, Ibirá já se encontrava com a gravidez bem avançada. Ao chegar na Taba da Beira, procuraram o morubixaba, que  permitiu aos dois viverem ali. O pagé, a quem cabia a união final dos dois, encontrava-se viajando pelas outras tabas, e eles teriam que aguardar a sua volta.

Passaram-se semanas, quando enfim o pagé voltou. Cauã e Ibirá estavam ansiosos para se apresentarem a ele, e quando o morubixaba os mandou até sua oca, foram o mais depressa possível, dentro das condições de Ibirá, que estava perto de dar à luz. Para espanto dos dois, assim que conheceu a situação, o pagé reagiu transtornado:

- Isso não pode ser! Tudo está errado, vocês não podem ficar juntos!

Então contou a história da mãe de Ibirá. Cauã era o filho que viera com ela, portanto irmão de Ibirá. De acordo com os costumes daquela tribo, irmãos não podiam ficar juntos, e os filhos defeituosos e filhos de incestos deveriam ser abandonados à sua própria sorte no seio da floresta. Invariavelmente acabavam mortos pelos animais. E por garantia, os frutos incestuosos eram mortos pelos próprios índios, pois acreditavam que se sobrevivessem trariam desgraça à tribo. Cauã ficou desesperado, e garantindo nunca mais voltar ao convívio dos índios, abandonou a aldeia, embrenhando-se na floresta. O morubixaba mandou que Ibirá permanecesse em sua oca, pois precisava de tempo para decidir o que fazer.

Isso ocorrera pela manhã, e agora Ibirá varava a madrugada remoendo sua aflição, ouvindo o choro lamentoso do urutau. Não tinha ilusões, sabia que seu filho seria condenado, e deveria morrer, pelo bem da aldeia. Seria melhor que ela própria morresse, acabando de vez com essa agonia. Mas lhe faltava coragem para isso, e o instinto materno firmava-se cada vez mais, obrigando-a a tentar encontrar soluções. Isso lhe tirava o sono, e os sons da floresta penetravam cada vez mais em seus pensamentos.



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Categoria: Caapora
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2 comentários
  1. Antonio Jota disse:

    Capitão…

    Acabei de ler a historinha… Que linda! Parece muito com o amigo. Quanta diferença entre ‘Ibirá’ e ‘Boa noite, Cinderela!’ Eu acho que tenho uma missão: proteger o Sr. de mim! Quanto antagonismo, meu Deus!… Mas eu adoro a inocência, apenas não a tenho, e mesmo se a tivesse, acho que não despertá-la-ia em mim… Será que sou mau de nascença? Acho que vou direto para o Inferno de fogo e ficar eternamente espetado no garfão do Cão, quando eu morrer. Pena que o Sr. estará no Céu e não mais seremos amigos… Só lamento por isso. Acho que vou pensar bem e tentar ganhar o Céu também… Assim seremos amigos para sempre, né?

    Abraço, amigo,

    Antonio Jota.

  2. Capitão Anilto Capitão Anilto disse:

    Não se pode comparar a série Caapora com o “Boa Noite Cinderela” (http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/2091324 – AVISO: Conteúdo impróprio para menores).
    São gêneros diametralmente opostos. A série Caapora pretende “reciclar” a lenda do Curupira. Nem de longe pretende explorar a questão sexual, que, na visão indígena antes da corrupção provocada pelo homem branco, era algo tão natural como crescer, aprender a caçar, comer ou dormir, e tinha tempo certo e maneira própria de ser tratado (suponho eu). Não que não houvesse erotismo no dia a dia indígena, mas que não cabe no contexto da série Caapora. Nenhum de nós vai para o céu ou inferno se depender dos textos, mas que você é um autor que está mais perto da coivara do cão, isto é…
    Mas é estilo. Há quem goste, há quem desgoste.

    Obrigado por visitar meu site.
    Capitão Anilto

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