Meu Boi Babão

- Sai daí, menino. O boi te pega! – Gritou meu tio, ao me ver em cima da cerca do curral.

Era meu passatempo preferido, ir ver os bois. Alguns puxavam arado, e voltavam completamente suados para o curral. Tinha uma parelha robusta que puxava o carro de boi quando ele ia buscar água no açude. Um peso enorme, e o carro vinha rangendo pela estrada. Nessas ocasiões ele deixava eu ir junto. A fábrica de fubá também era movida a bois, que passavam o dia inteiro rodando a mó. Tinha até um círculo gasto no chão de pedra onde eles passavam, dando voltas e mais voltas. No fim do dia estavam tão tontos que dava um trabalhão para os peões levá-los ao curral. Precisavam ser deixados perto do cocho.

Eu gostava principalmente de vê-los comendo, mascando pacientemente os pedaços de cacto palma. A baba pingava no chão. Quando comiam capim eram menos babões.


Baba, boi, baba
Baba e masca capim
Teu chifre vai virar um berrante
Teu estrume vai adubar meu jardim

Somente alguns poucos condenados, separados do resto do rebanho, recebiam uma alimentação especial, que vinha de longe em grandes amarrados. Era o tal do feno, que pra mim não passava de um mato cheiroso e envelhecido.

- Isso é só pra boi de corte. Pra dar um gosto melhor na carne. Boi de rico, porque rico paga mais caro pra gente criá-los assim, mas a carne fica só pra eles. – Explicou meu tio.


O bufar do boi cheirando a feno
Assusta mais que veneno
A bufa do boi fedendo a capim
Espanta pelo cheiro ruim

Tio era um grande boiadeiro. Esse era meu sonho de menino…
Quinta-feira era dia de matança. Naquela cidadezinha não se usava refrigerar carnes, a cidade só tinha uma geladeira, que era usada para fabricar picolés, por isso toda quinta-feira bois eram trazidos de manhã ao matadouro. Os açougueiros passavam a tarde e a noite despedaçando e separando as partes, e no dia seguinte era o dia de açougue. Era o único dia que se podia comprar carne fresca. Depois disso, as carnes tinham que ser salgadas, secadas, para o aproveitamento dos dias seguintes. Do boi nada sobrava: o couro era retirado para os curtumes,  a carne e as entranhas comestíveis para o açouque, o resto das entranhas, o sangue e os ossos eram vendidos para fábrica de ração de cahorros (acho que para os cachorros dos ricos das cidades grandes; na nossa, os cachorros só recebiam restos de comida),  chifres serviam para fazer berrantes, cascos para fazer enfeites. Do boi ainda saía a gelatina, o sebo comum era como graxa para o couro dos calçados e das bolas de capotão (tinha ainda um sebo especial que as mulheres que davam leite passavam no bico dos seios para não rachar), do fel se fazia o coalho, as crinas serviam para pincéis, enfim, nada sobrava depois do trabalho dos açougueiros, tudo tinha destino.

Numa dessas quintas-feiras um boi escapou pouco antes de entrar no corredor do matadouro. Saiu desembestado cidade adentro, provocando uma correria sem tamanho. As mulheres gritavam e se escondiam nos vãos, os meninos saiam correndo na frente do bicho, os homens agitavam os chapéus e as camisas para confundi-lo. Depois de muito escândalo, o boi parou todo confuso no meio da praça. Alguns homens, orientados pelos peões do matadouro, cercaram-no deixando só uma brecha, para onde ele era instigado a ir, com cutucadas de vara no trazeiro. Devagar, ziguezagueando, aos poucos o boi foi seguindo rumo a seu destino. Eu estava trepado em um muro próximo ao matadouro, e o boi passou pertinho, pude sentir seu bafo de capim. Ele olhou para mim. Não senti medo, pois vi nos olhos do bicho uma profunda tristeza. Nunca pensei que pudesse haver um olhar tão triste. Deu até dó.
O boi finalmente entrou no corredor, teve ainda tempo de soltar um mugido. Depois, uma marretada na cabeça e uma chuchada no pescoço puseram fim a sua vida. Pobre boi babão…


Ah, meu boi, como é triste tua sorte
Atado à canga, não tens saída
Serves ao homem antes da morte
Cede-lhes o corpo depois da vida


Tenho pena de tua sina amarga
Puxando o arado rasgas o chão
No carro de boi arrastas a carga
E movendo a mó, trituras o grão


Morto, teu corpo é todo usado
Carnes, chifres, ossos, sebo, couro
Nada fica para ser sepultado
Tudo tem valor, como um tesouro


Entendo agora o som lamentoso
Que produz o berrante ao tocar
E o rangido do carro de boi
Espalhando tristeza ao rodar


Servo em vida por natureza
Usado na morte por inteiro
Por ter visto teu olhar de tristeza
Não quero mais ser boiadeiro


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Um comentário
  1. luis antonio disse:

    Gostei de encontrar o senhor por aqui também. Parabéns. Voltarei.

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