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	<title>Textos do Capitao Anilto</title>
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	<description>Reflexões, comentários, textos literários, artigos</description>
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		<title>Piatã Capturado</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jan 2010 03:20:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Caapora]]></category>
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		<description><![CDATA[Passaram-se dois ou três anos. A tribo mantinha-se como podia, ora com períodos de bonança, ora com dificuldades. Os períodos difíceis, de pouca colheita, poucos frutos na mata, poucos peixes, obrigavam os índios a se valerem da caça, o que lhes trazia grandes preocupações. O caapora continuava atento aos desmandos dos caçadores. Alguns haviam sido açoitados com galhos de urtiga, às vezes tinham seus pés amarrados com embira, às vezes simplesmente postos a correr por causa dos queixadas sempre em movimento alvoroçado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Passaram-se dois ou três anos. A tribo mantinha-se como podia, ora com períodos de bonança, ora com dificuldades. Os períodos difíceis, de pouca colheita, poucos frutos na mata, poucos peixes, obrigavam os índios a se valerem da caça, o que lhes trazia grandes preocupações. O caapora continuava atento aos desmandos dos caçadores. Alguns haviam sido açoitados com galhos de urtiga, às vezes tinham seus pés amarrados com embira, às vezes simplesmente postos a correr por causa dos queixadas sempre em movimento alvoroçado. <span id="more-132"></span>Os curumins, que por vezes acompanhavam os adultos nas caçadas, para aprender a arte, divertiam-se pregando sustos nos adultos, imitando assobios do caapora, e à noitinha, contando casos dos desafortunados caçadores, sempre exagerando um pouco. Assim a lenda do caapora foi se firmando no povo, e isso incomodava a alguns caçadores mais afoitos, principalmente àqueles que já haviam cruzado o caminho do caapora.</p>
<p>Surgiu então um desejo de capturar o caapora para dar-lhe uma lição. Nesse tempo, alguns índios haviam feito contato com outras tribos, e aprendido a caçar com armadilhas feitas de redes de embira, pegando os bichos vivos. Alguns animais eram levados à taba e criados com restos de comida, estando sempre disponíveis quando a escassez chegava.</p>
<p>Num desses períodos de dificuldade, foram à floresta preparar armadilhas para capturar alguns bichos. As mulheres haviam tecido redes de tramas bem largas, que não prendiam animais pequenos, só os maiores, do porte de catetos pra cima. Escolheram um lugar perto da trilha que os animais costumavam fazer em direção a um riacho, e lá montaram as redes, ficando de tocaia, escondidos em moitas reforçadas com galhos. Algum tempo depois surgiu o que eles mais temiam: um bando de queixadas, que eram animais muito perigosos para se prender em redes, e por azar dos índios, alguns deles se entrelaçaram nelas, debatendo-se furiosamente. Os caçadores não conseguiam se aproximar, tamanha a fúria dos animais. A confusão parecia piorar, até que um dos índios conseguiu cortar uma das pontas da rede, e eles se libertaram, menos um, que continuava a guinchar furioso.</p>
<p>Estavam sem saber o que fazer, quando viram o caapora aproximando-se. Mais que depressa procuraram esconderijo nas moitas, e ficaram observado o que ia acontecer. O caapora aproximou-se da rede, tentando libertar o queixada que se debatia furioso. Puxando as tramas da embira, finalmente o caapora conseguiu abrir uma brecha para o animal sair, mas de tanto se debater, o queixada acabou com um dos pés amarrado, e corria de um lado para outro. Quando, por fim, se livrou da amarra, saiu em desabalada carreira mata a dentro. O animal fugiu, porém o caapora acabou enrodilhado na embira por conta dos movimentos do queixada.</p>
<p>Ao perceberem a situação, os índios pouco a pouco foram tomando coragem para se aproximar. Resolveram então jogar outras redes em cima do caapora, e quando acharam que ele estava suficientemente preso, levaram-no à taba, para ouvir a opinião do morubixaba sobre o que fazer. Alguns estavam receosos, queriam libertar o caapora para não terem mais encrencas, mas outros diziam que era o momento para se livrarem da aparição.</p>
<p>Chegando à taba, o morubixaba foi chamado, e decidiu convocar os mais velhos da tribo para deliberarem sobre a situação. O caapora, com rede e tudo, foi levado ao centro da ocara, onde foi amarrado a um tronco. À tardezinha, curumins, cunhataís e cunhãs chegavam da colheita de frutos e se deparavam com a cena inusitada. Logo o caapora estava cercado por uma multidão de curiosos.</p>
<p>- Tem cabelos de fogo – diziam uns.</p>
<p>- Seus pés são tortos! –admiravam-se outros, e assim o murúrio era geral.</p>
<p>Alguns homens mais atrevidos jogavam coisas no caapora, ou o cutucavam com varas.</p>
<p>- Vejam! É um enjeitado que sobreviveu. – disse um índio mais velho, sem muita certeza.</p>
<p>Peri e Iberê, agora quase curumins-guaçu voltavam de uma pescaria quando viram a multidão. Aos poucos se aproximaram do centro da ocara, e viram o caapora todo enredado. Foram chegando cada vez mais perto, ignorando a advertência das mulheres, que diziam que caapora era perigoso. Quando caapora os viu, seus olhos brilharam em reconhecimento.</p>
<p>- Curumins eté. – murmurou.</p>
<p>Mas Peri e Iberê não puderam ouvir mais nada. Várias mãos de mulheres temerosas os arrastaram para longe. A noite caiu, e pouco a pouco os índios se recolhiam, até que ficaram apenas dois índios, designados pelo morubixaba para vigiar o prisioneiro. Peri e Iberê estavam preocupados. Sabiam que o caapora não era mau, e que outros dependiam dele para sobreviver. Nunca haviam falado de sua estada na terra dos caapora, mas lembravam-se muito bem dela, e  inclusive achavam que os frutos que encontraram pelo caminho quando estavam perdidos tinham sido deixados pelo caapora, para que não sentissem fome. Já era noite avançada quando Iberê, sem conseguir dormir, teve uma idéia. Chamou Peri, e juntos foram até a borda da mata, escondidos, apanhar frutinhas iguais àquelas que caapora lhes dera, e que faziam dormir. Conseguiram achá-las e retornar à oca sem dificuldades. Lá espremeram várias delas numa cuia de água, pegaram algumas frutas, e foram levar para os dois índios que vigiavam caapora. Os índios, sem suspeitar de nada, serviram-se à vontade, e depois ralharam com os curumins para que voltassem à oca.</p>
<p>Não passou muito tempo, os vigias estavam dormindo. Peri e Iberê, rapidamente e com cautela desembaraçaram o caapora das redes. O caapora, que estava dormindo, acordou assustado, mas logo reconheceu os dois. Quando percebeu que estava livre, sorriu e fez um cafuné na cabeça dos dois, logo embrenhando-se na mata, sem nada dizer. Os curumins voltaram sem serem percebidos à oca.</p>
<p>Pela manhã acordaram com o alvoroço na ocara. Os índios olhavam pasmos para o amontoado de embira sem o caapora, que parecera estar tão bem enroscado na véspera. Os mais corajosos matutavam para saber como o caapora escapara, os mais medrosos afirmavam que o caapora era uma aparição, um espírito da mata que não podia ser preso. As mulheres todas tendiam a acreditar na aparição, muitas se sentiam aliviadas pelo seu desaparecimento, pois nunca o caapora incomodara os índios pequenos. Acreditavam mesmo que ele os protegia dos animais da floresta.  As especulações duraram todo o dia, e ao chegar da noite, o morubixaba, tendo reunido todos na ocara, anunciou:</p>
<p>- Caapora foi embora. Nenhum de nós, nem Pagé, sabe o que aconteceu. Tupã não deixou a gente compreender o mistério do caapora, então isso não é coisa para a gente querer resolver. Precisamos cuidar da vida da tribo. Não vamos caçar mais do que precisamos, não vamos pegar bichos que não podemos cuidar. Assim vamos cuidar das nossas coisas.</p>
<p>De repente parecia que não tinha havido nenhuma agitação. Ninguém mais se incomodou em resolver o mistério, nem sequer questionaram os vigias que tinham dormido. Acharam que tinha sido ação misteriosa do caapora. Os vigias também não se lembraram das frutas e da água oferecidos pelos curumins, e assim a vida voltou ao normal na aldeia.</p>
<p>Mas a lenda foi fortalecida e perdurou por muitos anos.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Para Entender o Caapora</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 05:07:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos textos referentes ao "Caapora" alguns termos precisam de um certo esclarecimento, por não serem de uso comum. Fiz um pequeno glossário, objetivando facilitar a leitura e crítica da série "Caapora". Espero que seja util, e, caso haja incorreções, por favor me informem. Não pesquisei tudo a fundo, posso estar cometendo asnices.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Nos textos referentes ao &#8220;Caapora&#8221; alguns termos precisam de um certo esclarecimento, por não serem de uso comum. Fiz um pequeno glossário, objetivando facilitar a leitura e crítica da série &#8220;Caapora&#8221;. Espero que seja util, e, caso haja incorreções, por favor me informem. Não pesquisei tudo a fundo, posso estar cometendo asnices.</p>
<p><span id="more-115"></span></p>
<ul>
<li><em><strong>Urutau</strong></em>:  espécie de coruja, também conhecida como&#8221;mãe da lua&#8221;.</li>
<li><em><strong>Ibirá</strong></em>: do tupi <em>árvore.</em></li>
<li><em><strong>Cauã</strong></em>: gavião.</li>
<li><em><strong>Morubixaba</strong></em>: o chefe de uma tribo.</li>
<li><em><strong>Taba</strong></em>: aglomerado de ocas,  aldeia. A &#8220;praça&#8221; ou quintal da taba é a <em>ocara</em>.</li>
<li><em><strong>F</strong><strong>ebre tremedeira</strong></em>: provavelmente a malária.</li>
<li><em><strong>Cunhã</strong></em>: mulher. Tornar-se cunhã corresponde ao fim da adolescencia. <strong><em>Cunhã-mucuim</em></strong> é a menina no início da adolescencia. <strong><em>Cunhataí</em></strong> é a menina criança.</li>
<li><em><strong>Curumim</strong></em>: menino. <strong><em>Curumin-guaçu</em></strong> é o moço, aquele jovem no fim da adolescência. <strong><em>Curumim eté </em></strong>significa criança honrada, verdadeira, feliz.</li>
<li><em><strong>Emprenhar:</strong></em> engravidar.</li>
<li><strong><em>Pagé</em></strong>: o chefe espiritual da tribo e curandeiro.</li>
<li><strong><em>Oca</em></strong>: corresponde a uma casa nos nossos povoados.</li>
<li><strong><em>Uirapuru</em></strong>: pássaro amazônico de canto belo e misterioso.</li>
<li><strong><em>Araponga</em></strong>: pássaro que tem um canto semelhante ao bater de um martelo na bigorna.</li>
<li><strong><em>Queixada</em></strong>: animal da família dos <em>catetos</em>, maiores que estes. São muito parecido com os porcos e javalis, apesar de não serem da mesma família. Os queixadas atuais atingem até 1,40 m de comprimento, chegando a pesar 50 quilos. São muito fortes e ágeis, além de bastante agressivos. Os catetos são menores. Os índios antigos não conheciam os porcos, os quais foram introduzidos pelos colonizadores. Usamos porcos no texto como sinônimo de queixadas, como analogia para facilitar a compreensão do leitor. Os queixadas da nossa história eram bem maiores que os conhecidos atualmente, e isso baseado nos nossos indígenas, que afirmam que queixadas enormes realmente existem.</li>
<li><strong><em>Jaguatirica</em></strong>: um &#8220;gato do mato&#8221; muito perigoso.</li>
<li><strong><em>Caapora</em></strong>: gente do mato (tupi).</li>
<li><strong><em>Piatã: </em></strong>forte, vigoroso, pedra dura.</li>
<li><strong><em>Urtigueira:</em></strong> designação genérica de diversas plantas que possuem substância que queimam a pele. Possuem geralmente pelos rígidos como agulhas, e liberam substâncias irritantes em contato com a pele. Algumas espécies possuem propriedades medicinais.</li>
<li><strong><em>Curupira:</em></strong> espécie de ente das lendas brasileiras, a quem normalmente é atribuída a proteção das florestas. Há muitas variações dessa lenda, e em algumas regiões <em>caapora, caipora e curupir</em>a referem-se aos mesmos entes, com pequenas variações.</li>
</ul>
<p>Espero que essas informações tragam algum esclarecimento. Caso mostrem-se muito fora da realidade, considerem-nas verdadeiras dentro do contexto do &#8220;Caapora&#8221;, que é um texto de ficção, e dará tudo certo&#8230;</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Os Caaporas</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 04:08:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Peri não resistiu, e sua urina desandou. Iberê perdeu a fala. Por algum tempo não puderam mexer-se. Somente quando o caapora mandou-lhes seguir até onde estava a estranha índia, conseguiram sair do estupor. Caminharam em silencio, com as pernas bambas, com o caapora logo atrás. A índia ao vê-los, assustou-se, mas caapora logo a acalmou.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Peri não resistiu, e sua urina desandou. Iberê perdeu a fala. Por algum tempo não puderam se mexer. Somente quando o caapora mandou-lhes seguir até onde estava a estranha índia, conseguiram sair do estupor. Caminharam em silencio, com as pernas bambas, com o caapora logo atrás. A índia ao vê-los, assustou-se, mas caapora logo a acalmou.</p>
<p><span id="more-107"></span></p>
<p>Levou os curumins até uma lapa, onde lhes deu frutas e água. Iberê agora sentia seu pé cada vez mais dolorido, mal resistindo ao choro. O caapora, percebendo a dor do menino, aplicou uma pasta viscosa, que aliviou um pouco a dor. Depois pegou umas frutinhas e espremeu numa cuia d’água. Peri viu as frutinhas, lembrando que tinha visto muitas delas perto da taba.</p>
<p>- Bebam a água. Faz dormir. Precisam descansar. Dor no pé vai passar.</p>
<p>Os curumins obedientes tomaram a água. Logo a sonolência veio, e se ajeitaram numa das paredes da lapa. Pouco depois dormiam profundamente. O martelar de uma araponga os acordou no dia seguinte. O pé de Iberê doía menos, mas ainda dificultava o caminhar.</p>
<p>- Precisam ficar mais. Pé ainda não bom. Não se afastem daqui. – e dizendo isso entregou-lhes frutos e uma cuia com água.</p>
<p>Depois de alimentados e já bem menos temerosos, os curumins arriscaram-se a dar uma olhada em volta. Na entrada da lapa encontraram a índia estranha, que acalentava um bebê.</p>
<p>- Esse meu. Nasceu de mim. Outros enjeitados. São caaporas agora. – dizendo isso afastou-se.</p>
<p>Os curumins não entenderam de imediato. Logo depois perceberam olhares ocultos nas moitas e nas grutas. Ficaram bem quietos, prestando atenção. Passado algum tempo, um a um, curumins apareciam. Muitos tinham defeitos, uns sem pernas, outros com estranhas faces com olhos afastados. Alguns arrastaram-se até eles e os tocaram. Os curumins estavam petrificados de medo. Não sabiam o que era aquilo. Nisso dois caaporas maiores apareceram, conduzindo gentilmente os defeituosos até o interior das grutas. O caapora que os alimentara apareceu.</p>
<p>- Não tenham medo. Eu caapora Piatã, o mais velho. Outros caapora agora, curumins enjeitados. Ela Jaci-porã – apontou a índia com o bebê. &#8211; Nós caapora. Vocês não contar nada. Perigoso. Vocês ficar quietos, ser feliz. Vocês sei que são curumins eté. Amanhã levar de volta para a taba. Não tenham medo.</p>
<p>Alguns curumins defeituosos voltaram com frutos, oferecendo a Peri e a Iberê. Logo estabeleceu-se um entendimento entre eles, e começaram a brincar. Apareceram alguns filhotes de queixada, e a brincadeira tornou-se em montaria de queixadas. Peri e Iberê mal sentavam no lombo dos bichos, e caiam. Os defeituosos agüentavam-se mais tempo. Os curumins nunca tinham visto queixadas tão grandes. Mesmo os filhotes eram maiores do que aqueles que os índios caçavam perto da taba. O dia passou divertido, e logo a noite chegou.</p>
<p>No dia seguinte o pé de Iberê não doía mais, e logo cedo o caapora Piatã iniciou a caminhada de volta à taba. Fizeram o trajeto todo a pé, sempre acompanhados pelos enormes queixadas, demorando dois dias até que os curumins reconheceram as imediações de sua taba.</p>
<p>- Agora vocês vão só. Não falem da gente. Vocês curumins eté. Os caapora precisam viver em paz. Vão. Não falem nada. – após estas recomendações, montou um queixada, e toda vara saiu desabalada carreira mata adentro, desaparecendo em pouco tempo.</p>
<p>Peri olhou para Iberê e disse:</p>
<p>- Não vamos falar. Vamos dizer que achamos o caminho por sorte. O caapora cuidou da gente. Eles não são povo sumarã.</p>
<p>Iberê concordou, e juntos seguiram o caminho já conhecido. Chegando a ocara, os índios correram até eles alegres com seu retorno. Por várias vezes contaram suas andanças pela mata até acharem o caminho de volta. Em nenhum momento falaram dos caapora. Afinal eles eram curumins eté. Entre os curumins diziam que foram protegidos pelo Curupira, mas sem falar dos caapora. Assim reforçaram a lenda que o Curupira, ou o caapora, era protetor da floresta e dos animais, e que até ajudavam as crianças perdidas. Só não tolerava os adultos que maltratavam a natureza.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Os Curumins Perdidos</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 04:07:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tempos depois um grupo de caçadores entrou na floresta. Junto deles ia dois curumins, Peri e Iberê. A taba estava passando por um período difícil, as colheitas haviam sido pobres, e não havia outro jeito senão caçar mais para saciar a fome de todos. Iam receosos, pois a lenda do caapora estava cada vez mais forte. Incidentes na mata eram atribuídos a ele, assim implantou-se o temor nos índios.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Tempos depois um grupo de caçadores entrou na floresta. Junto deles ia dois curumins, Peri e Iberê. A taba estava passando por um período difícil, as colheitas haviam sido pobres, e não havia outro jeito senão caçar mais para saciar a fome de todos. Iam receosos, pois a lenda do caapora estava cada vez mais forte. Incidentes na mata eram atribuídos a ele, assim implantou-se o temor nos índios.<span id="more-105"></span> Aventuraram-se até mais fundo na floresta, onde encontraram caça abundante. Depois de conseguir a caça necessária, voltaram o mais rápido possível para a taba, não tendo sido incomodados. Somente quando estavam a salvo na aldeia, perceberam a ausência dos dois curumins. Alguns dos mais bravos guerreiros retornaram à floresta, onde passaram alguns dias procurando por eles, mas não tiveram sorte. Voltaram abatidos para a aldeia, e toda a tribo permaneceu dias em lamentação.</p>
<p>Na floresta os dois curumins caminhavam sem rumo, parando de vez em quando para alimentar-se ou beber água. Estranhamente encontravam frutos caídos no chão da mata, por isso não sentiam fome. Acontecera que durante a caça, os dois se afastaram para ver um riacho mais à frente, e tentar pescar alguns peixes. Ao se aproximarem do riacho, viram encarapitada numa árvore caída uma grande onça, que dormitava preguiçosamente. Tentaram retornar o mais silenciosamente possível, mas devido ao susto não acharam mais o caminho. Andaram muito, cada vez mais se afastando dos índios caçadores. Estavam cansados de andar, quando encontraram os primeiros frutos caídos, que serviram para matar a fome. Perto do escurecer, acharam uma moita de espinhos que escondia um vão entre pedras, onde passaram a noite. No dia seguinte puseram-se novamente a caminhar, entrando cada vez mais mata adentro. Na tarde do segundo dia estavam perto de uma cachoeira, em cujas margens haviam muitas pedras, algumas formando grutas. Passaram ali sua segunda noite.</p>
<p>No terceiro dia já estavam desesperados, achando que nunca mais veriam de novo a aldeia. Água e comida não faltavam. Não precisavam procurar muito, frutos caídos eram bons para comer. Mesmo sem esperanças, não desistiam de achar o caminho. Para complicar a situação, Iberê tinha prendido um pé entre pedras, e agora sentia dores fortes.</p>
<p>Quando o sol estava no alto do céu, os dois se achavam num emaranhado de arbustos e pedras, num lugar estranho que eles não tinham conhecimento. De algum lugar ouviram um choro baixo. Ficaram intrigados com isso, e apurando os ouvidos, foram se aproximando do choro. O caminho entre as pedras estava cada vez mais confuso, e não sabiam como iam sair dali, mas a curiosidade era mais forte, e seguiram adiante. Depararam-se com uma clareira entre as pedras, limpa como a ocara de sua taba. Então viram do outro lado da clareira uma estranha índia amamentando um bebê. Sua aparência era esquisita, tinha os olhos muito afastados. Estava distraída e não os vira. Arrepiaram-se de medo, e voltaram-se para o caminho de onde vieram, mas deram de cara com o caapora.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>A Lenda do Curupira</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 04:02:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por muito tempo conseguiu vagar pela mata sem ser pressentido pelos índios. Um dia, porém, não teve tanta sorte, e sua vara de queixadas em desabalada carreira passou inadvertidamente entre um bando de caçadores. Ouviu seus gritos incrédulos, e viu que uns apontavam aos outros chamando atenção para sua presença.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Por muito tempo conseguiu vagar pela mata sem ser pressentido pelos índios. Um dia, porém, não teve tanta sorte, e sua vara de queixadas em desabalada carreira passou inadvertidamente entre um bando de caçadores. Ouviu seus gritos incrédulos, e viu que uns apontavam aos outros chamando atenção para sua presença. Após se por a salvo, acalmou-se e achou melhor verificar o bando de caçadores.<span id="more-95"></span> Tangeu sua vara para longe, e aproximou-se dos caçadores sorrateiramente. Por sorte eles estavam bastante assustados, e conversavam em voz alta sobre o ocorrido, em volta de uma fogueira.<br />
- Era um índio, tenho certeza! – disse um deles.<br />
- Acho que era um macaco. Nenhum índio consegue correr montado nas costas de queixadas. – disse outro, incrédulo.<br />
Outro caçador, que pela sua conduta parecia liderar os demais, pôs fim à discussão, afirmando:<br />
- Parecia um índio sim, mas tinha os cabelos vermelhos, da cor de urucum. Acho que é esse índio ou essa aparição que tange os queixadas contra os caçadores. Precisamos tomar cuidado com ele, não sabemos o que caaporas fazem com índios. Precisamos caçá-lo, quando isso for possível. Pode ser que seja um índio louco, e só quando estiver morto vamos ter sossego.<br />
Assim caapora redobrou os cuidados em suas andanças. Mas como costumava aproxima-se das tabas, foi visto outras vezes, sempre correndo veloz com seus queixadas. Queria evitar os índios o máximo possível, mas nem sempre as coisas são como se quer, e às vezes a natureza pede socorro.<br />
Em uma dessas vezes, um lamento percorreu a floresta. Aves grasnavam assustadas, os macacos faziam algazarra, alvoroçados, pulando de árvore em árvore sem destino certo. Até a onça esturrava sem razão aparente. Os cabelos do caapora arrepiaram-se misteriosamente, e ele saiu com sua vara de queixada sem rumo certo. Guiado pelo voejar das aves aflitas, logo encontrou a fonte dos distúrbios: um grupo de caçadores promovia uma matança desenfreada de animais em um capão à beira de um rio. Haviam feito um cerco, e agora empilhavam corpos de animais no centro de uma clareira, alguns ainda vivos, mas seriamente feridos por lanças e flechas.<br />
Sem poder se conter, o caapora açulou os porcos contra os índios, e armado com um galho de urtigueira, castigava severamente os índios caçadores. Apanhados de surpresa o grupo não teve reação, correndo desarvoradamente para todo lado. Os queixadas, no entanto, cercavam-nos, sempre os conduzindo de volta à clareira, onde estavam à mercê da urtigueira do caapora.<br />
Alguns curumins que acompanhavam o grupo permaneciam escondidos na orla da floresta, assistindo a tudo. Estavam apavorados demais para fazer qualquer coisa. Tão repentinamente quanto atacaram, os queixadas e o caapora se retiraram. Ao passar pelos curumins o caapora deteve-se e olhou para eles. Estavam paralisados de medo.<br />
- Matar bicho só para matar fome. Não pode judiar. – e sumiu mata adentro.<br />
Depois que o grupo retornou à aldeia, os curumins se encarregaram de espalhar o ocorrido. Os caçadores envergonhados diminuíram sua ânsia pela caça. Poucos se aventuravam, e ainda assim, só caçavam quando necessário. A lenda se espalhou pelas aldeias próximas, e alguns disseram que o caapora era o espírito da mata, protetor dos animais e da floresta, e deram-lhe o apelido de Curupira. Os curumins, em suas entradas pela floresta, sentiam menos medo que os adultos, pois a crença era que se não judiassem dos bichos, o caapora os deixariam em paz. Assim correu a lenda no tempo&#8230;</p>
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		<title>A Infância do Caapora</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 04:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[- Por que vivemos aqui? - perguntou Piatã a Ibirá, certo dia.
Ibirá então contou o costume dos índios. Assim soube que era um curumim condenado, que sobrevivera por conta da coragem de sua mãe de abandonar a aldeia e submeter-se ao julgamento da natureza. Por pouco tempo pareceu triste, mas logo sua alegria voltou, juntamente com suas correrias pela floresta com a vara de porcos]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>- Por que vivemos aqui? &#8211; perguntou Piatã a Ibirá, certo dia.<br />
Ibirá então contou o costume dos índios. Assim soube que era um curumim condenado, que sobrevivera por conta da coragem de sua mãe de abandonar a aldeia e submeter-se ao julgamento da natureza. Por pouco tempo pareceu triste, mas logo sua alegria voltou, juntamente com suas correrias pela floresta com a vara de porcos.<span id="more-94"></span><br />
O tempo passou, e um dia Ibirá encontrou um esqueleto na floresta. Um índio que morrera , provavelmente atacado por onça. Ao aproximar-se dele, um arrepio tomou conta de seu corpo: junto aos ossos do pescoço, um colar. O mesmo colar que Ibirá dera a Cauã quando foram viver na Taba da Beira.<br />
Desse dia em diante definhou rapidamente, e não mais saiu das proximidades de sua toca, até que um dia não resistiu a uma febre tremedeira e morreu. O caapora Piatã agora estava sozinho com os animais. Sua mãe se fora, a única de sua espécie que conhecera&#8230;<br />
Caapora superou a morte da mãe, encontrando apoio nos bichos. Cada vez mais aventurava-se pela floresta, conhecendo novos lugares. Adorava a companhia dos queixadas e seu ritmo de vida, correndo para lá e para cá pela imensa floresta. Em suas andanças aproximou-se dos aldeamentos, mas sempre teve o cuidado de manter-se oculto. Um dia encontrou um lugar que lhe causou pavor: bem no coração da mata, uma porção de ossos espalhados, todos de curumins bem pequenos. Muitos despedaçados, apenas restos de esqueletos, mas dentre eles um mais recente, ainda com sobras de carne apodrecida neles. Isso lembrou o que sua mãe lhe dissera a respeito dos bebês enjeitados. Ele poderia estar ali, seria um desses restos&#8230;<br />
A partir daí, em sua patrulha pela floresta o caapora sempre retornava a esse lugar. Algo o atraía, não sabia por quê. Até que viu um curumim condenado vivo! Era um curumim, recém-nascido, deformado, que provavelmente não sobreviveria mais do que até a noite. Caapora ficou em alvoroço, seu sangue fervia. Decidiu então levar o pequeno abandonado para sua toca, dar-lhe uma chance. O pequeno tinha apenas tocos de pernas, e nas mãos faltavam dedos. Felizmente na toca uma nova ninhada nascera, então não seria difícil alimentar o pequenino. Passados uns dias o curumim defeituoso já mostrava sinais de sobrevivência. Seu pequeno rosto tinha os olhos muito afastados, mas intensamente brilhantes.<br />
O Caapora encontrara um motivo mais para viver. Todo dia patrulhava as proximidades das aldeias, colhia frutos e caçava pequenos animais. Aprendera com sua mãe que a carne era necessária aos índios, mas não tanto quanto os outros alimentos colhidos pela floresta. Só caçava eventualmente. Em suas andanças vira caçadores com grande número de animais abatidos. Isso lhe causava irritação, pois sabia que muitos daqueles animais eram abatidos desnecessariamente, apenas por diversão.</p>
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		<title>O Nascimento do Caapora</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 03:29:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um estranho silêncio tomava conta da mata quando Ibirá acordou. Além de dores agudas, sentia toques gelados e úmidos em seu corpo. Quando o atordoamento do sono passou, percebeu que estava cercada por um bando de filhotes de queixadas, os quais, curiosos, fuçavam seu corpo. Uma pontada aguda em seu abdômen fez com que ela emitisse um grito de dor, o que assustou os filhotes, mas logo eles estavam de volta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p>Um estranho silêncio tomava conta da mata quando Ibirá acordou. Além de dores agudas, sentia toques gelados e úmidos em seu corpo. Quando o atordoamento do sono passou, percebeu que estava cercada por um bando de filhotes de queixadas, os quais, curiosos, fuçavam seu corpo. Uma pontada aguda em seu abdômen fez com que ela emitisse um grito de dor, o que assustou os filhotes, mas logo eles estavam de volta. <span id="more-79"></span></p>
<p>Ibirá, entretanto, não podia mais se incomodar com isso: sua cria estava nascendo. O parto não foi demorado nem muito doloroso. Logo estava em seu colo um pequeno curumim, igual aos que já vira nascer, a não ser por uma fina cabeleira avermelhada e pezinhos tortos. Tão logo veio ao mundo, precipitou-se num berreiro, que foi acompanhado pelos guinchos do bando de filhotes. Alguns deles aventuraram-se a fuçar o bebê, e lamber-lhe o sangue e a sujeira do parto. Ibirá apenas cuidava para que não o machucassem, estreitando-o no colo. O berreiro atraiu alguns queixadas adultos, dentre eles uma grande porca, mãe dos filhotes, que parecia irritada com essa invasão de seus domínios. Ibirá, muito fraca para fazer qualquer coisa, estreitou ainda mais seu bebê, e virou-se contra o fundo da gruta, esperando o desfecho, o fim de sua agonia. Sabia que os queixadas eram violentos, e suas grandes presas estraçalhavam a carne com facilidade, por isso os índios os temiam. Fechou os olhos. Seu curumim já se calava, buscando o seio para amamentar-se.</p>
<p>- Pelo menos não morrerá com fome. &#8211; Pensou Ibirá, desesperançada.</p>
<p>O fim não veio, no entanto. A grande porca aproximou-se e se esparramou no chão, suas costas nas costas de Ibirá e deixou que seus filhotes tomassem conta de suas tetas. Assim firmou-se uma tolerância tácita entre Ibirá e os queixadas. O pequeno curumim sobreviveu, mãe e filho convivendo com os porcos. Criou-se entre os filhotes, e não poucas vezes compartilhando as tetas da mãe queixada.</p>
<p>Depois do parto, Ibirá sentiu suas forças renovadas. Dedicava-se a cuidar de sua cria, o curumim nascido no mato, um pequeno caapora, o caapora de Ibirá. Fez dali sua casa, aprendeu observando os bichos a sobreviver às doenças da floresta. Descobriu folhas amargas, aprendeu a lamber a lama que cura, onde todos os animais buscavam socorro. Muitas vezes esteve cara a cara com onças e jaguatiricas, mas parecia que naquele lugar os animais não lhe atacavam. Caapora foi crescendo, e como tinha dificuldades de correr, logo aprendeu a galopar nos queixadas, primeiro os filhotes, depois os maiores, e se deslocava em grande velocidade pela mata, acompanhando o alvoroço da vara. Logo estava forte o bastante para percorrer novos caminhos, e passou a conhecer a floresta tão bem quanto os outros bichos. Sentia-se bicho, parte da natureza que o acolhera. Ibirá lhe ensinou a respeito da vida dos índios, seus costumes e medos, e deu-lhe o nome de Piatã.</p>
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		<title>A Fuga de Ibirá</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 03:28:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O morubixaba e o pagé dirigiram-se pela manhã à oca de Ibirá. Haviam decidido que Ibirá permaneceria na aldeia até o nascimento do curumim, quando então seria levada à Taba do Grotão, assim que possível. Sua cria teria o destino de costume. Tão logo nascesse, seria entregue a alguns índios, que deveriam levá-lo para o seio da floresta. Não precisava dizer que deveria ser morto lá, pois os índios eram suficientemente temerosos para deixá-lo vivo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<p>O morubixaba e o pagé dirigiram-se pela manhã à oca de Ibirá. Haviam decidido que Ibirá permaneceria na aldeia até o nascimento do curumim, quando então seria levada à Taba do Grotão, assim que possível. Sua cria teria o destino de costume. Tão logo nascesse, seria entregue a alguns índios, que deveriam levá-lo para o seio da floresta. Não precisava dizer que deveria ser morto lá, pois os índios eram suficientemente temerosos para deixá-lo vivo.  <span id="more-77"></span>Para ele não haveria esperanças nem compaixão. Ao chegarem à oca, não encontraram Ibirá, ninguém sabia onde ela fora. O morubixaba reuniu a tribo e sentenciou:</p>
<p>- Ibirá fugiu. Leva com ela uma cria de seu irmão. Essa cria não pode viver. Se alguém encontrar Ibirá, deve levá-la para o Grotão. A cria, se estiver viva, deve ser entregue ao pagé, para o fim que precisa ter. Não pode haver compaixão, senão será a desgraça de nós todos.</p>
<p>Ibirá não tivera coragem para esperar a decisão. Ao primeiro canto do Uirapuru, quando a aurora começava a espantar a escuridão, deixou sua oca entrando na floresta. Caminhava em direção às serras de pedra, que eram temidas pelos índios, pois ali viviam os animais mais ferozes, como a onça traiçoeira e os bandos de gigantescos queixadas, os ferozes porcos-do-mato. Não tinha esperanças, mas decidira entregar seu destino às forças da natureza. Não podia mais viver entre os índios, sua vergonha seria sempre lembrada. Assim caminhou durante todo o dia, alimentando-se de frutos e saciando sua sede nos olhos d’água pelo caminho. Ao anoitecer, abrigou-se em uma grota protegida por espinheiros. Pelo cheiro ali era uma toca abandonada de catetos. Mal a escuridão tomou conta da floresta, Ibirá adormeceu, acordando no dia seguinte, como sol já no horizonte. Não fora incomodada por nenhum animal. Seguiu seu caminho, alimentando-se aqui e ali com as frutas que encontrava. Caminhou o dia inteiro, parando de vez em quando para descansar. Estranhamente não sentia medo dos animais. Vira por duas vezes jaguatiricas no alto de matacãos, e cruzara o caminho de um bando queixadas, que passaram em alvoroço sem se incomodar com ela. Já era bem tarde quando chegou a uma pequena cachoeira, e ali próximo, encontrou uma gruta funda. No entanto sentiu o cheiro fresco dos queixadas. Provavelmente era uma de suas tocas recentes. Já se dispunha a sair dali quando uma pontada no abdômen a fez curvar-se. Quase entrou em pânico, não poderia permanecer naquele lugar, pois os porcos poderiam voltar e a estraçalhariam. Tentou andar, mas a dor era intensa e impedia seus movimentos. Vencida, deitou-se a um canto e, apesar das dores, logo foi tomada por intenso torpor e adormeceu.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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		<title>Ibirá</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Jan 2010 03:23:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Capitão Anilto</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Enquanto se preparava para dormir, Ibirá ouvia o canto lamentoso do urutau, o que combinava bem com sua aflição. Depois de algum tempo, encolheu-se na rede sem esperanças de conciliar no sono. Estava agoniada demais para dormir, e remoía as últimas descobertas sobre sua vida. Pensava em Cauã, o qual jamais veria novamente. Não recriminava sua atitude, sabia que não havia opções. Cauã embrenhara-se na floresta com a intenção de nunca voltar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p>Enquanto se preparava para dormir, Ibirá ouvia o canto lamentoso do urutau, o que combinava bem com sua aflição. Depois de algum tempo, encolheu-se na rede sem esperanças de conciliar no sono. Estava agoniada demais para dormir, e remoía as últimas descobertas sobre sua vida. Pensava em Cauã, o qual jamais veria novamente. Não recriminava sua atitude, sabia que não havia opções. Cauã embrenhara-se na floresta com a intenção de nunca voltar.<span id="more-74"></span></p>
<p>Ela mesma não sabia o que seria de sua vida, tudo estava nas mãos do morubixaba, cujos conselhos aguardaria até o amanhecer. Devido à gravidade da situação, o próprio morubixaba pedira um tempo para pensar, para tentar encontrar o melhor caminho. Certamente a morte seria a melhor solução, mas não tinha coragem suficiente para isso, e também pensava em sua cria, que se bulia em suas entranhas, de antemão condenada.</p>
<p>A mãe de Ibirá viera de uma taba distante, a Taba do Grotão, logo depois de perder seu companheiro, vítima de uma onça. Trouxe consigo um filho homem, deixando lá Ibirá pequena, sob os cuidados de seus parentes. Na época havia carência de mulheres para os afazeres da Taba da Beira, e havia necessidade da colaboração dos outras tabas da tribo para a sobrevivência de todos. Não era possível simplesmente abandoná-la, pois outras tribos se apossariam da região, causando mais dificuldades. A mãe de Ibirá, no entanto, não durara muito, morrendo com a febre tremedeira poucos dias depois. Seu filho permaneceu por ali, criado junto aos outros curumins, desligando-se assim desligara-se de seus parentes que viviam na outra taba,  e isso foi sua perdição.</p>
<p>Quando se tornou cunhã, Ibirá pensou em seguir os passos de sua mãe, indo para a Taba da Beira. Por esse tempo apareceu por ali  um curumin-guaçu caçador, chamado Cauã, que perambulava pela floresta das imediações. Ibirá apaixonou-se por ele, e passou a acompanhá-lo. Acabaram unindo-se, e em conseqüência, Ibirá emprenhou. Decidiram então seguir até a taba onde Cauã morava, para acertar a situação junto ao morubixaba e ao pagé da tribo, mas protelaram essa decisão por alguns meses. Quando enfim seguiram viagem, Ibirá já se encontrava com a gravidez bem avançada. Ao chegar na Taba da Beira, procuraram o morubixaba, que  permitiu aos dois viverem ali. O pagé, a quem cabia a união final dos dois, encontrava-se viajando pelas outras tabas, e eles teriam que aguardar a sua volta.</p>
<p>Passaram-se semanas, quando enfim o pagé voltou. Cauã e Ibirá estavam ansiosos para se apresentarem a ele, e quando o morubixaba os mandou até sua oca, foram o mais depressa possível, dentro das condições de Ibirá, que estava perto de dar à luz. Para espanto dos dois, assim que conheceu a situação, o pagé reagiu transtornado:</p>
<p>- Isso não pode ser! Tudo está errado, vocês não podem ficar juntos!</p>
<p>Então contou a história da mãe de Ibirá. Cauã era o filho que viera com ela, portanto irmão de Ibirá. De acordo com os costumes daquela tribo, irmãos não podiam ficar juntos, e os filhos defeituosos e filhos de incestos deveriam ser abandonados à sua própria sorte no seio da floresta. Invariavelmente acabavam mortos pelos animais. E por garantia, os frutos incestuosos eram mortos pelos próprios índios, pois acreditavam que se sobrevivessem trariam desgraça à tribo. Cauã ficou desesperado, e garantindo nunca mais voltar ao convívio dos índios, abandonou a aldeia, embrenhando-se na floresta. O morubixaba mandou que Ibirá permanecesse em sua oca, pois precisava de tempo para decidir o que fazer.</p>
<p>Isso ocorrera pela manhã, e agora Ibirá varava a madrugada remoendo sua aflição, ouvindo o choro lamentoso do urutau. Não tinha ilusões, sabia que seu filho seria condenado, e deveria morrer, pelo bem da aldeia. Seria melhor que ela própria morresse, acabando de vez com essa agonia. Mas lhe faltava coragem para isso, e o instinto materno firmava-se cada vez mais, obrigando-a a tentar encontrar soluções. Isso lhe tirava o sono, e os sons da floresta penetravam cada vez mais em seus pensamentos.</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
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