Ela apareceu um certo dia num cantinho da rua que eu passava diariamente. Assustei-me ao vê-la, ela apenas levantou os olhos, um olhar de súplica e submissão, humanizado. Continuou deitada…
No segundo dia, um abanar de rabo. No terceiro, ousou aproximar-se. Seu corpo magérrimo, coberto de sarna causou-me repulsa. Nos dias seguintes, repetia a aproximação, até que tomei coragem e lhe acariciei a cabeça, ainda com nojo. Retribuiu com o abanar da cauda.
Um dia saí apressado, um pedaço de pão na mão. Ao passar por ela, joguei-lhe o pão. Fez festa. A partir daí sempre lhe levava algum agrado, até que ela tomou coragem e seguiu-me quando eu voltava do trabalho. Não consegui mandá-la embora, ajeitei-lhe um cantinho, coloquei uma tigela de água, dei-lhe alimento. Curei sua sarna e ganhei uma amiga fiel. Nunca me abandonou. Assistiu a crises e recomeços em meu lar, sempre a meu lado.
Nos últimos anos foi minha única companhia. Acompanhava minhas caminhadas para superar a hipertensão, vigiava meus cochilos na varanda à tarde, latia triste nas minhas saídas, fazia festa nas chegadas…
Hoje deu seu último suspiro. Descansa agora num cantinho do quintal. Amiga fiel, deixa boas recordações…
Imprima este artigo


