Ama-de-leite

1853.

Pareceu até um sinal da natureza. As colméias da fazenda amanheceram alvoroçadas e enxames invadiram a casa-grande, provocando um tumulto imenso. Escravas corriam com suas senhoras para fora, ainda em roupas de dormir, abanando-as com trapos de pano para espantar as abelhas. A ama-de-leite corria com seu pequeno senhor – que já não era tão pequeno assim, tinha pouco mais de sete anos – embrulhado em um lençol.

Um capataz abriu a senzala e os negros que ali estavam correram para acudir. Queimando tochas de pano, esfumaçavam a casa para espantar as abelhas. Parte do enxame invadiu os aposentos dos capatazes e os estábulos, provocando um estouro da cavalhada. Os capatazes tentavam acalmar alguns cavalos, ao mesmo tempo que se preocupavam com o bando de negros próximos à casa. O mais temido deles, que também era feitor da fazenda, quando tentava dominar seu cavalo, foi atacado pelas abelhas, e caiu debatendo-se inutilmente na tentativa de livrar-se delas. Seu cavalo, vendo-se solto, escoiceou-o no rosto e saiu em disparada, deixando-o inerte numa poça de sangue.

Um dos jovens escravos viu a cena, e num vislumbre de esperança, bradou:

- Liberdade! Liberdade!

Seus companheiros, a maior parte recentemente adquiridos nos nojentos mercados de negros do Rio de Janeiro e ainda ansiosos pela vida livre, rapidamente entenderam a senha, e, deixando de lado as abelhas, partiram para cima dos outros capatazes e os dominaram, amarrando-os ao tronco que havia no meio do terreiro. Depois, apossaram-se dos cavalos que ainda restavam no estábulo e fugiram, dois e até três em cada cavalo. Um deles, que estava sozinho, parou perto da ama-de-leite e chamou:

- Venha, sinhá. Deixe o menino aí e venha com a gente.

- Vou não… não vou deixar o menino sozinho aqui. Ele precisa de mim…

- Deixe de ser boba, sinhá. O senhor quando chegar não vai ter piedade de quem ficar.

- Vão embora, eu fico.

E assim a ama-de-leite e um velho escravo que já não enxergava direito, foram os únicos que ficaram na fazenda. Todos os outros foram embora, levando as mulheres e crianças negras. No caminho os fugitivos encontraram os cavalos, já mais calmos, e levaram todos. Conseguiram dessa forma colocar-se em segurança antes que os capitães-do-mato pudessem iniciar uma perseguição. O senhor da fazenda tinha viajado, e só estaria de volta no começo da noite.

Com o esquentar do sol as abelhas alvoroçadas reuniram-se em enxame e logo partiram. Os capatazes, depois de livres das cordas, nada puderam fazer, pois todos os cavalos haviam sido levados, e eles estavam isolados. Preocuparam-se em apagar os focos de incêndio que havia no celeiro e nos estábulos, um trabalho duro, pois eram poucos e não estavam acostumados ao serviço pesado como os escravos. As mulheres da fazenda também pouco podiam fazer, a não observar e lamentar o acontecido.

À noite, quando o senhor da fazenda chegou, ainda faziam o rescaldo dos últimos focos de fogo.

- Maldição! Maldição! Ah, bando de negros, eles me pagam! – e mandou acorrentar ao tronco o preto velho, a ama-de-leite e os três escravos que tinham viajado com ele.

- Rasguem o couro desses desgraçados na chibata! Vão servir de exemplo aos outros. Depois peguem meu cavalo e vão até a cidade buscar o capitão-do mato. Quero ele aqui ainda esta noite.

- Pai, não judie deles, eles não fizeram nada. Não maltrate minha mãe-de-leite!

- Cala a boca, moleque! Essa negra vai ter o castigo que merece. E nunca mais a chame de mãe-de-qualquer-coisa, é só uma preta nojenta, uma vaca leiteira.

- Não, pai, ela cuida de mim. Deixe… – não conseguiu acabar de falar. Um tabefe o jogou a um canto da sala, com a boca sangrando.

- Mulher, leve esse moleque daqui. Amanhã ele vai pra cidade. Um internato vai ensiná-lo a ser homem. Não gosto de mariquinhas.

A senhora da fazenda, submissa e calada, levou o menino para o quarto, apressada.

- Não saia daqui. Seu pai está irritado, não o deixe mais nervoso ainda, senão as coisas vão piorar.

- Por favor,mamãe, não deixe que judiem de mãe-preta.

- Cale-se! – e reforçou a ordem com um tapa no rosto do menino. – Não me fale mais dessa escrava.

Deixou o menino sozinho, chorando inconsolável. Lá fora, no tronco, as chibatas talhavam a carne dos escravos. O preto velho foi o primeiro que arriou, sem forças. Depois a ama-de-leite. No quarto o menino gemia a cada chibatada que ouvia. Quando por fim os capatazes deixaram prostrados os escravos, o silêncio tomou conta da noite, e entre suspiros o menino adormeceu. Por fim, já noite alta os lampiões foram apagados.

Era madrugada, a ama-de-leite acordou de seu torpor com uma mão acariciando seu rosto.

- Mãe-preta… acorda, mãe.

- Sinhorzinho, o que faz aqui? Vá pra casa, senão seu pai fica zangado.

- Deixa eu ficar aqui com a senhora. Está muito machucada?

A negra, com os braços presos ao tronco, deixou que o menino se aconchegasse em seus seios.

- Meu sinhorzinho… meu corpo está todo machucado, mas minha alma está em paz. Logo ela vai cruzar o grande mar e voltar para a terra que eu nasci, voar pelos prados como os passarinhos, encontrar outras almas libertadas, brincar e sorrir como as crianças. Logo vai encontrar Deus… não o Deus dos brancos ou os Deuses dos pretos, e sim o Deus das almas e espíritos, que não tem cor, são todos iguais. Vou ser como o vento acariciando as flores,como o raio de sol aquecendo a pele do meu povo…

- Não me deixe, mãezinha-preta. Fique comigo…

- Se eu pudesse… mas… você pode… me guardar no seu coração… uma lembrança… não dói… não pesa…

- Mãezinha…

O menino abraçou a negra com cuidado, evitando magoar os ferimentos. Ela gemia baixinho de vez em quando. Acabou adormecendo naqueles seios nus, que o alimentaram quando pequeno. O lusco-fusco da alvorada já se insinuava quando o preto velho acordou o menino.

- Sinhorzinho, acorde. Vá pra casa antes que o povo se levante.

- Quero ficar aqui, com minha mãezinha-preta…

-Filho, agora é tarde, vá embora. Sua mãe-preta já partiu. Sua alma livre já se foi.

O menino, percebendo que a negra já estava morta, desesperou-se, a abraçou e chorou. Depois de algum tempo, sem saber o que fazer, resolveu ouvir o preto velho e voltou para seu quarto. Logo pela manhã sua mãe veio dizer-lhe que a ama-de-leite havia morrido. Chorou, e permaneceu no quarto o dia inteiro.

O capitão-do-mato veio à tarde dar notícias ao senhor da fazenda.

- Meu senhor, agora é muito difícil encontrar os negros fugitivos. Estavam todos a cavalo e seguiram em direção aos quilombos. Lá é difícil entrar, é bem guardado.

- Incompetente! Suma daqui! Se não consegue seguir um bando de negros, não me serve. Vá embora!

No dia seguinte o menino foi levado à Corte, onde iria permanecer num internato. Seu pai foi junto, para negociar novos escravos. A fazenda não podia funcionar sem a mão de obra negra.

1868.

Um jovem advogado recém-formado ouvia nas escadaria do Teatro São José, em São Paulo, um amigo poeta, o mestiço Castro Alves. O poeta estava com um grupo de colegas ensaiando a declamação de sua mais recente poesia, Navio Negreiro, pois dali a alguns dias iria apresentá-la oficialmente a um grupo de artistas. Os versos lidos, um após outro chicoteavam a alma do jovem. Seus olhos marejados pareciam hipnotizados pela força e crueza real da composição. Queria fugir dali, daqueles versos sofridos, duros, mas não conseguia.

“Era um sonho dantesco… o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar de açoite…

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!”

Sua memória o levou à infância. Lembrou-se de sua ama-de-leite, que o alimentara quando pequeno. Negra, sorridente apesar da sua sofrida vida de escrava, sempre lhe dera carinho, acolhia-o em suas tetas fartas, embalava-o com canções em língua africana. Sua mãe verdadeira, ao contrário, mal o via, apenas tratava-o como filho na presença das visitas. Condenava-o pelas dores que sofrera no parto, tinha-lhe nojo por ter sido alimentado com leite de negra.

Sua mãe-preta morrera por causa da crueldade de seu pai, que ensandecido pela rebelião de seus escravos, mandou amarrar ao tronco os poucos que restaram e açoitá-los até o limiar da morte. Deixou que as lágrimas descessem, enquanto os versos cortantes prosseguiam…

“Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos… o chicote estala.

E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!”

“Ontem plena liberdade,

A vontade por poder…

Hoje… cúm’lo de maldade,

Nem são livres p’ra morrer.”

“Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus,

Se eu deliro… ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!…

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

Do teu manto este borrão?

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão! …”

O  jovem fascinado mal ouviu os aplausos ao final da leitura. Castro aproximou-se dele.

- Estás bem, meu amigo?

- Ah, Castro, quantas verdades. Com que crueza sintetizastes esse horror! Deixa-me, estou bem. Lembranças apenas. E obrigado, ajudaste-me numa decisão. Desejo-te sorte na tua apresentação, mas não estarei mais aqui para te ouvir. Tenho uma questão a resolver.

Dias depois, o jovem advogado chegava à fazenda de seu pai. Este já ampliara seus domínios, novos negócios, muitos escravos. No entanto caíra doente, e não lhe restara outra opção a não ser entregar tudo a seu filho que, quinze anos antes, logo após a rebelião de seus antigos escravos, fora mandando à Corte para estudar em internato.

O jovem, um dia após sua chegada, demitiu seus capatazes, depois reuniu os escravos e anunciou a todos a liberdade. O pai, doente e sem forças, assistia a tudo indignado.

- És louco? Como vamos sobreviver? A Corte mexeu com teu juízo? Pára agora com essa loucura. Pára! Onde estão os capatazes? Manda-os aqui, manda trancar os negros…

- Não meu pai. Não adianta. O senhor matou minha ama-de-leite, inocente daquela rebelião. Matou um escravo velho e três dos seus escravos que nada tinham a ver com a confusão. E a quantos mais judiou e maltratou? Nesta vida, meu pai, só fez sofrer essa gente. Não ouviu meus apelos para poupar minha ama-de-leite, mãe-preta, mãe de coração. Agora o senhor está incapacitado para me contrariar. Farei o que é justo. Chega de covardia. Fique quieto! Ainda lhe resta um pouco dessa sua vida, aproveite-a e veja como farei a justiça.

O Senhor da fazenda nada mais pode fazer. O filho fez acordo com os negros, os que quiseram ficar passaram a trabalhar como meeiros na fazenda, uns poucos foram embora. O arranjo deu certo, a fazenda prosperou. O velho, não se sabe se por decepção, indignação ou pela doença, morreu em poucas semanas.

Mas somente vinte anos depois, em 13 de maio de 1888, o eco das palavras abolicionistas atingiu o coração da Princesa Izabel, que finalmente promulgou a Lei Áurea, e o país pode aos poucos corrigir a vergonha do regime escravagista.

(Os versos citados são de Castro Alves – Navio Negreiro – 1868)

 

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7 comentários
  1. fatima disse:

    Li seu texto.Amigo muito bom.abraços.

  2. maria gicelma disse:

    Um belo texto. Parabéns.

  3. Maria Socorro Sobral disse:

    Li seu texto, me emocionei com o desfecho da história mas gostei muito. Parabéns capitão !

  4. Maria Socorro Sobral disse:

    A escravatura na história do Brasil me comove e me revolta. Inevitalvemente chego a passar essa revolta para os alunos, isso não me preocupa, precisamos formar cidadãos críticos e conscientes de que nem tudo que “o poder” faz é dentro da legalidade.

  5. […] “The Wet Nurse” (2013): English; Portuguese […]

  6. Oi, Anilto, foi realmente um grande prazer para mim traduzir o seu conto para o inglês como “The Wet Nurse”, na revista “Contemporary Brazilian Short Stories”! Espero que escreva mais contos para a gente traduzir! Abraços, Catherine

  7. Capitão Anilto Capitão Anilto disse:

    Muito obrigado, Catherine. A tradução ficou excelente. Parabéns.
    Fique à vontade para traduzir meus textos. Enviei para a CBSS o meu livro de contos “Textos Selecionados”. Todos os textos daquele livro podem ser traduzidos individualmente. Espero que algum dia alguém traduza o livro todo e publique em inglês. Vou ficar muito feliz com isso. O livro já está sendo traduzido para o espanhol.
    Os textos deste site também poderão ser traduzidos e divulgados, bastando citar a autoria. Espero que ache outro texto do seu agrado.
    Abraços.

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