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Início de ano, época de umbus. O umbuzeiro perto do cemitério estava carregado, ponto de visita obrigatório para os moleques de Alagoinha. Dia de sol forte, ótimo para jogar ximbras (bolinhas de gude) embaixo do umbuzeiro, onde a sombra era abundante, e ainda se deliciar com os umbus.
Os moleques chegaram ao umbuzeiro, mas logo notaram algo estranho: uma criança estava trepada lá no alto, estranhamente quieta. Intrigados, foram se postando um a um embaixo do umbuzeiro, em silencio, tentando decifrar o acontecido. Lá em cima, uma menina estava agarrada nos galhos, enrijecida e com olhar tão apavorado que sequer percebeu a chegada deles.
Olharam uns para os outros, sem entender, até que Zé Leite, o menorzinho da turma e o mais negrinho (ele era preto de verdade, só tinha branco nos olhos e nos dentes; os outros eram pretos de tanto tomarem sol…), com seu olhar aguçado, percebeu a razão do pavor e apontou para os demais.
- Olhem! Uma cobra! – disse num cochicho.
A poucos centímetros da menina, uma cobra-cipó a fitava, prestes a dar o bote. A menina, no seu pavor, não se mexia, talvez achando que com isso a cobra não a atacaria.
Era preciso fazer alguma coisa, sabiam que cobras-cipó não eram muito pacientes. Então Zé Leite, o menorzinho, mas de melhor pontaria, sacou seu estilingue, e numa pedrada certeira, derrubou a cobra do umbuzeiro, que caiu meio aturdida no chão, mas ainda assim se contorcendo freneticamente. Os demais, sem demora a atacaram com pedras e paus e tudo que tinham ao alcance, até que conseguiram matá-la.
Depois, dois moleques subiram no umbuzeiro e ajudaram a menina a descer. No chão, soluçando compulsivamente, a menina abraçou Zé Leite demoradamente, uma atitude incomum naqueles tempos, pois meninas e meninos não se abraçavam assim. Dizia o povo que logo em seguida ao abraço, começava-se a pensar em coisas feias…
Em seguida a menina foi embora correndo. Eles logo esqueceram a cara dela, no entanto, naquele fim de férias, o feito de Zé Leite correu a cidade, e ele se transformou o herói da vez, o moleque que salvou uma menina trepada no umbuzeiro da mordida certa de uma cobra-cipó.
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