O tempo estava opressivo e eu caminhava apressado para chegar logo em casa. No caminho ia me lembrando da aula. Hoje tinha sido ensaio para a festinha de encerramento do ano na escola. As férias estavam custando a chegar mais que o ano passado, devido ao atraso no início das aulas, pois a escola tinha sido destelhada por uma tempestade e o conserto fora demorado. Mas enfim, o fim de ano se aproximava e as férias logo viriam. Boa oportunidade para ganhar um dinheirinho aqui e ali, limpando quintais.
Nossa sala comportava duas turmas misturadas: a do primeiro ano e a minha, segundo ano. As crianças do primeiro ano estavam ensaiando uma pequena cantoria que era motivo de mangação para os mais velhos. A maioria dos pequeninos parecia envergonhada quando cantavam desafinados os versinhos:
“Os gatinhos, os gatinhos bonitinhos
Quando dormem, fazem de mansinho
tão engraçadinho: rom, rom, rom…”
A nossa turma ensaiava uma canção mais difícil, mas era muito bonita, me fazia sentir americano. Na pressa pelo caminho, não parava de relembrá-la:
“Quando nuvens negras pairam sob o céu
empanando a terra como um negro véu…”
Olhei para cima. Parecia que a escuridão estava tomando conta do mundo. Pesadas nuvens negras iam se juntando, coriscos já começavam a riscar o céu escuro. Apressei o passo, quase a correr. Começou uma ventania, folhas e galhos eram arrancados das árvores. Os primeiros pingos começaram, e desandei de vez a correr, quase sem fôlego, pois já estava cansado pela caminhada apressada. Quando avistei os contornos da casa, a chuva caía torrencial, acompanhada de ventania e relâmpagos. Morava com minha vó numa casa quarto-e-cozinha, construída em mutirão com tijolos e telhas paulistinhas reaproveitadas, na periferia do vilarejo. As pessoas tinham feito isso com pena de nós, únicos da família que sobreviveram ao acidente com o ônibus que nos trouxera do Ceará, alguns anos atrás, que tombou na chegada a São Paulo.
Cheguei em casa completamente encharcado. Eu tentava fechar a porta quando um raio desceu num eucalipto próximo. Foi um estrondo tremendo. Senti um choque atravessar meu corpo e fui jogado ao chão. Minha vó me acudiu e juntos fechamos a porta. Vó imediatamente buscou uma palma benta que guardava para essas ocasiões, colocando-a atrás da porta, e começou a desfilar rezas para Santa Bárbara, pedindo proteção. Me veio à mente o ensaio da escola:
“Ouve-se uma prece dessa gente audaz,
que não teme as guerras, mas desejam a paz.”
Estávamos em pé, perto do fogão a lenha, lugar com menos goteiras. Vó continuava em sua fervorosa reza. Lá fora a chuva cada vez mais forte. A música da escola martelava minha cabeça. Eu não sabia se era americano, mas sempre sentia um arrepio quando chegava no verso:
“Deus salve a América, terra de amor…”
Meu pensamento foi interrompido quando vi uma enorme rachadura que se formava na parede.
- Vó, vamos sair daqui! – gritei enquanto a arrastava em direção à porta. Melhor enfrentar a chuva do que a casa caindo.
Quando chegamos à porta, minha vó tocou a palma benta e pediu aflita:
- Deus, nos acuda!
Foi a última coisa que ouvi dela. No instante seguinte, com um estrondo, o eucalipto atingido pelo raio tombou sobre a casa, já enfraquecida pelas rachaduras. Em seguida, escuridão, frio, torpor. Voltei a mim com mãos aflitas me puxando do meio do barro. Sobre o meu peito a palma benta. Ainda chovia, mas os vizinhos ao perceberem a queda da casa vieram em socorro. Minha vó jazia embaixo do tronco do eucalipto. Ninguém mais me restara. Ainda confuso, sem saber o que fazer, sentei-me nos escombros, enquanto as pessoas retiravam o corpo de minha vó. Senti naquele momento toda intensidade da tristeza e da solidão.
Chorei…
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Parabéns, Captain
Belos textos, muito bem escritos. Que bom saber um pouco mais de voce através de suas palavras.
Aproveite e visite meu outro blog ” Um outro olhar” http://deborahperrone.zip.net/
Abraços
Deborah
Veleu, Débora.
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Abraços.